Desacelerar deve ser uma regra geral

Felicidade em sala de aula

A felicidade pode ser um tema incrível para ser trabalhado em sala de aula. O assunto ganha ainda mais respaldo diante das novas diretrizes propostas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), do MEC, pois ela prevê o trabalho com competências socioemocionais nas escolas, o que pode abranger a felicidade.

Em outras palavras, se ética, comunicação não violenta, autoconhecimento e empatia são consideradas habilidades importantes para proteger a saúde mental e combater o bullying, por que não trazer também a felicidade para as dinâmicas de atividades em sala de aula? Pelo mundo, há várias experiências enriquecedoras nesse sentido.

Às vésperas do Dia Internacional da Felicidade, celebrado no próximo 20 de março, vale a pena apresentar uma iniciativa bacana implantada na Holanda. Já adotado por mais de 300 escolas no país, onde alcançou cerca de 20 mil alunos, o método da Gelukskoffer Scholen (em livre tradução, “Escolas da Mala da Felicidade”) aposta no empoderamento e na autossuficiência dos alunos.

Felicidade em sala de aula

Felicidade em sala de aula

Uma dica interessante: o conteúdo criado pela Gelukskoffer Scholen está disponibilizado gratuitamente na internet (em inglês e alemão) para que professores no mundo inteiro possam saber como trazer a felicidade para a sala de aula. As atividades formuladas por essa empresa social têm o objetivo de fazer com que os estudantes se descubram literalmente, ou seja, que saibam exatamente quem são. Isso implica em questões como o relacionamento com as demais pessoas e a definição do que de fato esses estudantes consideram importante em suas vidas.

Por meio dessa prática, a metodologia implantada pela Gelukskoffer Scholen faz com que os estudantes se tornem protagonistas de suas próprias jornadas, ou seja, eles aprendem a fazer suas escolhas com independência, tornam-se resilientes, adquirem confiança e desenvolvem o espírito do trabalho em grupo. Dessa forma, fortalecem os laços e a interação social.

Entre as atividades realizadas com as crianças, destaca-se a de avaliar o que é a felicidade para elas, pois o intuito é fazer com que tenham consciência desse conceito em suas vidas. As crianças também são estimuladas a destacar qualidades dos colegas, o que ajuda a criar um ambiente agradável e fortalece a autoestima de cada um dos estudantes.

Trazer a felicidade para dentro da sala de aula não tem contraindicações. Para tornar essa tarefa mais fácil, Elena Aguilar, especialista em educação, concedeu uma entrevista ao portal Edutopia e revelou orientações interessantes para estimular a prática das teorias e dos conceitos da felicidade entre os professores nas escolas.

A educadora estadunidense ressaltou, por exemplo, que a música pode ser uma boa aliada para os trabalhos com as questões relacionadas à felicidade em sala de aula. As dicas incluem até mesmo a adoção de períodos de meditação.

5 dicas para tornar a felicidade uma realidade em sala de aula

Confira algumas orientações importantes da educadora Elena Aguilar:

1. Desacelerar deve ser uma regra geral

O primeiro passo para obter sucesso no trabalho com a felicidade diz respeito à redução do ritmo. Em outras palavras, é fundamental fugir do caos e do ritmo frenético diário para assegurar a boa qualidade das atividades realizadas no espaço escolar.

As relações interpessoais ganham muito com isso e as pessoas tornam-se mais atentas ao que estão fazendo. Aliado a isso, é preciso prever momentos para relaxar e se descontrair. Isso pode ocorrer por meio de um bate-papo ou até mesmo de um jogo lúdico. O processo de aprendizagem ganha muito com essas práticas.

2. Além da sala de aula

Pode apostar: fazer com que os alunos se aventurem além da sala de aula faz toda a diferença para o bem-estar deles. Propor dinâmicas em espaços alternativos cria o ambiente propício para potencializar temáticas relacionadas à felicidade.

O contato com a natureza, por exemplo, gera diferentes conexões e permite inúmeras reflexões. Tenha em seu plano de atividades aulas ao ar livre. Se bem exploradas, elas garantem inúmeras situações de satisfação. O pacote pode incluir dinâmicas extraclasse e excursões. Vale lembrar que momentos assim geram uma maior aproximação entre professores e estudantes. Fora isso, fortalecem os laços e o sentimento de pertencimento.

 

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Felicidade em sala de aula

Felicidade em sala de aula – 3. Use e abuse dos benefícios da música

Não à toa, a música costuma ser vista como sinônimo de conexão e felicidade. Se bem utilizada em sala de aula, a música pode ser um recurso incrível para sensibilizar os alunos em diferentes atividades. Dar o play pode provocar sensações importantes e até colaborar com a saúde. Afinal, ouvir uma canção tem efeitos terapêuticos – ajuda a reduzir a ansiedade – e pode até mesmo garantir a boa pressão arterial e impactar positivamente o sistema imunológico. Experimente, no momento da chegada dos estudantes, deixar uma música tocando. Ela pode tornar o clima mais acolhedor e gerar uma vibe positiva no grupo.

4. A força de um sorriso

A felicidade em sala de aula está nos pequenos detalhes. Manter um sorriso no rosto, por exemplo, faz com que os alunos se sintam mais inspirados e motivados no ambiente escolar. O professor deve investir nisso, por mais difícil que possa parecer em algum determinado momento.

5. Experimente a meditação

Há vários indicativos de que a meditação assegura o bem-estar e estimula bons sentimentos entre os praticantes. Por essas e outras razões, a prática, lembra Elena Aguilar, deve ser parte da rotina de professores e alunos. A atividade garante um ambiente ideal para a aprendizagem, a troca de conhecimentos e outras experiências. Vale a pena investir nisso!

Se o assunto é felicidade em sala de aula, vale a pena destacar a trajetória do escritor, educador e jornalista Alexander Sutherland Neill (1883-1973). Em nove décadas de vida, o fundador da Summerhill School, na Inglaterra, tornou-se referência na aplicação de pedagogias alternativas ao estabelecer um processo de aprendizagem em que é essencial a criança ter liberdade para escolher e decidir o que aprender. Dessa forma, de acordo com suas teorias, elas se desenvolvem no seu próprio ritmo.

Tido como o promotor da felicidade em sala de aula, Alexander Sutherland Neill tinha um propósito: ajudar a construir um mundo melhor por meio da escola. Com esse objetivo, o educador consagrou-se como um dos mais célebres nomes da área nas décadas de 1960 e 1970.

Por sua postura e coragem, sobretudo pelo respeito que demonstrava à infância, Neill merece ser fonte de referência obrigatória. “Nossa cultura não tem tido grande sucesso. Nossa educação, nossa política, nossa economia levam à guerra. Nossa medicina não põe fim às moléstias. Nossa religião não aboliu a usura, o roubo… Os progressos da época são progressos da mecânica em rádio e televisão, em eletrônica, em aviões a jato. Ameaçam-nos novas guerras mundiais, pois a consciência social do mundo ainda é primitiva”, protestou Neill na obra “Liberdade Sem Medo”.

Com forte influência do filósofo iluminista Jean-Jacques Rousseau, defensor da bondade inata do homem, e baseado nos estudos de nomes da psicanálise como Sigmund Freud e Wilhelm Reich, Neill defendia que a educação deveria se concentrar essencialmente na dimensão emocional do aluno. Para ele, era fundamental que a sensibilidade ultrapassasse sempre a racionalidade.

Para inspirar novos e importantes insights sobre a felicidade em sala de aula, vale a pena revisitar algumas dicas da professora Laurie Santos, responsável por um curso que revolucionou a rotina dos alunos na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. O interesse dos acadêmicos em descobrir o caminho para ser feliz se refletiu na grande procura pelas aulas – elas bateram o recorde de inscritos em 2018, ao totalizarem cerca de 1,2 mil estudantes.

Para Laurie Santos, que também é psicóloga, as aulas não são nada fáceis. Afinal, atingir mudanças reais na vida exige a revisão geral de hábitos, ou seja, é preciso muita força de vontade e esforço real para alcançar esses objetivos.

3 maneiras de atingir a felicidade na prática

Veja três ideias trabalhadas por Laurie Santos em suas aulas:

1. A gratidão deve fazer parte da sua vida

Ser grato, aponta a professora, é fundamental para atingir a felicidade. Em sala de aula, por exemplo, os alunos podem ser inspirados a fazer uma lista de agradecimentos. Se a pessoa não é capaz de ser grata pelo que tem e de reconhecer as demais conquistas, provavelmente terá mais dificuldades para ser feliz.

2. Procrastinar não é legal

Outro ponto bacana destacado por Laurie Santos diz respeito a ter atitude. Os estudantes devem ser motivados a correr atrás do que sonham ou desejam para mudar realidades que não consideram ideais. Só não vale deixar para depois. Procrastinar jamais pode ser a regra.

3. Potencialize as conexões sociais

A psicóloga lembra que, para atingir a felicidade, é necessário estar em sintonia com as pessoas que podem favorecer esse cenário. Simples atitudes como um cinema com um colega, uma videochamada ou uma rodada de pizza podem ser o ponto de partida para o estudante ter dias mais felizes. Adiar instantes alegres nunca é uma boa pedida.

Com os impactos da pandemia na vida de todas as pessoas, trazer a felicidade para a sala de aula pode ser uma alternativa interessante para superar os problemas provocados pelo coronavírus à saúde mental da população no planeta. É preciso recuperar a autoestima, ter foco, objetivos e acreditar. Por meio de medidas aparentemente simples, é possível provocar grandes revoluções na vida de todos nós. Vale a pena apostar nisso e abrir espaço para dinâmicas que favoreçam esse tema nas escolas. Que tal colocar um sorriso no rosto e conversar com a sua equipe? Mãos à obra e um maravilhoso 2022!

 Felicidade em sala de aula

Imagem: freepik

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